Sinais de infarto não devem ser ignorados

por Redação

Os cartórios de registro civil brasileiros registraram um aumento de 31% no número de mortes por doenças cardiovasculares no período de 16 de março a 31 de maio deste ano (comparando com 2019)1, o que demonstra que pode ter faltado atendimento rápido para esses casos. Os dados foram recentemente divulgados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e chama atenção para as consequências de ignorar os sinais do infarto e deixar de procurar urgência médica.

Soma-se a essa realidade a constatação da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista2, que registrou uma queda de 50% nos atendimentos a pacientes cardíacos. 2

Esses pacientes são, justamente, os que têm risco aumentado de desenvolver as formas mais graves da covid-19, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. 3

Segundo o cardiologista Álvaro Avezum, diretor do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e professor livre-docente da Universidade de São Paulo (USP), o mesmo fenômeno ocorreu, de acordo com estudos, em países como Itália, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos. “Possivelmente, isto também tenha ocorrido e esteja ocorrendo no Brasil. Há o receio da contaminação por parte da população quando precisa ir às unidades de emergência. Como infarto agudo do miocárdio e AVC, causas número 1 e número 2 de mortes no Brasil, necessitam de tratamento precoce para redução das taxas de mortalidade e de incapacitação, a demora na chegada às unidades de emergência ou mesmo a não procura, leva ao aumento das taxas de mortalidade e de complicações decorrentes destas doenças”, comenta o especialista, que complementa afirmando que as primeiras 12 horas após o  início dos sintomas são decisivas para reduzir mortalidade. 4

A pandemia de coronavírus tem levado à redução de atendimentos cardiológicos. Mas Infarto agudo do miocárdio precisa de ajuda imediata para evitar risco de morte. Quais os sinais do infarto?

Dr. Álvaro Avezum – Os seguintes sinais e sintomas podem sugerir quadro clínico de infarto agudo do miocárdio: dor precordial (dor no peito) ou irradiação da dor para costas, epigástrio (região do estômago), braço esquerdo e pescoço; sudorese, palidez, dispneia (falta de ar), náuseas e vômitos. Podem estar todos presentes ou apenas um. Se houver um destes sintomas, especialmente em pessoas com mais de 40 anos e com fatores de risco (tabagismo, obesidade abdominal, colesterol alterado, hipertensão arterial, diabetes, sedentarismo, estresse e/ou depressão, alimentação não saudável), a recomendação é procurar um serviço de urgência. 4

Qual a taxa de mortalidade por infarto?

Dr. Álvaro Avezum – As taxas de mortalidade variam de acordo com a região geográfica, hospital que atende o paciente e das características do paciente (idade, sexo, outras condições clínicas associadas como diabetes e disfunção renal). Aproximadamente, 25% dos casos de infarto agudo do miocárdio falecem antes de chegarem ao hospital e aqueles que são admitidos no hospital podem ter taxas de mortalidade mais baixas quando o tratamento ideal baseado em evidências científicas é realizado (abaixo de 5%) ou mais altas quando o tratamento não é instituído ou a chegada ao hospital é tardia (acima de 10%).

Pacientes que sofreram infarto antes da pandemia, por exemplo, precisam fazer exames e acompanhamentos periódicos? Com qual frequência?

Dr. Álvaro Avezum  – Pacientes que apresentaram infarto do miocárdio antes da pandemia, devem ser reavaliados para a prevenção de recorrência do infarto e de complicações como por exemplo insuficiência cardíaca, devem retornar em consulta após 30 dias e depois 3 meses após o evento, mantendo consultas periódicos para reavaliar tratamento, pressão arterial, colesterol, alimentação, glicemia, atividade física, gerenciamento de estresse e depressão para correta prevenção cardiovascular. 5-6

Paciente pode fazer acompanhamento médico por telemedicina neste período de quarentena?

Dr. Álvaro Avezum  – A Telemedicina, em casos selecionados, pode ser uma alternativa para avaliação médica.

Referências

  1. Cartórios de Registro Civil do Brasil. Disponível em: https://transparencia.registrocivil.org.br/especial-covid (acessado em 29/06/2020)
  2. Sociedade Brasileira de Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista; página 4 Disponível em: https://www.sbhci.org/post/jornal-da-sbhci-ano-xxiii-n-2%C2%BA-78-abr-mai-jun-de-2020-issn-1984-9176 (acessado em 02/07/2020)
  3. Sociedade Brasileira de Cardiiologia. Disponível em: http://www.cardiol.br/sbcinforma/2020/20200313-comunicado-coronavirus.html (acessado em 02/07/2020).
  4. Piegas LS, Timerman A, Feitosa GS, et al. V Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Tratamento do Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST. Arq Bras Cardiol. 2015;105(2 Supl.1):1-105.
  5. Risk factors of critical & mortal COVID-19 cases: A systematic literature review and meta-analysis. J Infect. 2020 Apr 23. pii: S0163- 4453(20)30234-6. doi: 10.1016/j.jinf.2020.04.021. [Epub ahead of print]. Disponível em: http://publicacoes.cardiol.br/portal/abc/portugues/aop/2019/aop-diretriz-prevencao-cardiovascular-portugues.pdf
  6. Kamil F. Faridi, MD; Eric D. Peterson, MD, MPH; Lisa A. McC. Timing of First Postdischarge Follow-up and Medication Adherence After Acute Myocardial Infarction. JAMA. 2016